{"id":3311,"date":"2014-03-25T15:02:30","date_gmt":"2014-03-25T18:02:30","guid":{"rendered":"http:\/\/www.sindsaudeba.org.br\/novo\/?p=3311"},"modified":"2019-12-13T17:54:59","modified_gmt":"2019-12-13T20:54:59","slug":"sai-a-primeira-indenizacao-federal-por-morte-na-gravidez","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sindsaudeba.org.br\/portal\/blog\/sai-a-primeira-indenizacao-federal-por-morte-na-gravidez\/","title":{"rendered":"Sai a primeira indeniza\u00e7\u00e3o federal por morte na gravidez"},"content":{"rendered":"<div id=\"attachment_3312\" style=\"width: 298px\" class=\"wp-caption alignleft\"><a href=\"http:\/\/www.sindsaudeba.org.br\/novo\/wp-content\/uploads\/2014\/03\/WiltonJunior-Estadao288.jpg\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-3312\" loading=\"lazy\" class=\"size-full wp-image-3312\" title=\"WiltonJunior-Estadao288\" src=\"http:\/\/www.sindsaudeba.org.br\/novo\/wp-content\/uploads\/2014\/03\/WiltonJunior-Estadao288.jpg\" alt=\"\" width=\"288\" height=\"212\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-3312\" class=\"wp-caption-text\">Wilton Junior\/Estad\u00e3o<\/p><\/div><br \/>\nFonte: Estad\u00e3o<br \/>\nRIO &#8211; Em 2002, 1.655 mulheres morreram por complica\u00e7\u00f5es na gravidez. Uma delas foi a vendedora Alyne Pimentel, de 27 anos. Aos seis meses de gesta\u00e7\u00e3o de Ester, sentiu-se mal e procurou a maternidade em que fazia pr\u00e9-natal, em Belford Roxo, na Baixada Fluminense. Alyne sangrou quase um dia inteiro, at\u00e9 ser transferida para um hospital. Foi reanimada. Como n\u00e3o enviaram a ficha m\u00e9dica, passou 8 horas no corredor. Morreu em 16 de novembro. Na v\u00e9spera, Ester havia sido enterrada.<br \/>\nNesta ter\u00e7a-feira, a m\u00e3e de Alyne, Maria de Lourdes Pimentel, de 64 anos, vai receber indeniza\u00e7\u00e3o do governo federal. O caso, considerado emblem\u00e1tico por reunir uma s\u00e9rie de problemas enfrentados por mulheres de todo o Brasil, foi denunciado \u00e0 Organiza\u00e7\u00e3o das Na\u00e7\u00f5es Unidas (ONU). Em 2011, o Brasil foi condenado pela morte de Alyne &#8211; primeiro caso de mortalidade materna julgado pelo Comit\u00ea da ONU para Elimina\u00e7\u00e3o de todas as Formas de Discrimina\u00e7\u00e3o Contra Mulheres (Cedaw, na sigla em ingl\u00eas). Lourdes j\u00e1 sabe o que vai fazer com o dinheiro: contratar um plano de sa\u00fade.<br \/>\n&#8220;Dinheiro n\u00e3o vale a perda da minha filha. O que importa \u00e9 o Brasil ter sido condenado. Se n\u00e3o fosse essa ONU, a justi\u00e7a n\u00e3o teria sido feita. Mas at\u00e9 hoje h\u00e1 gr\u00e1vidas morrendo nos hospitais&#8221;, diz Lourdes, que tem um casal de filhos e hoje cuida da filha de Alyne, Alice, que tinha 5 anos quando a m\u00e3e morreu. &#8220;As coisas t\u00eam de melhorar. Eles v\u00e3o indenizar todo mundo? Eu briguei n\u00e3o foi um dia, n\u00e3o foi um m\u00eas. Foram 12 anos. \u00c9 mais pelo futuro das outras m\u00e3es.&#8221;<br \/>\nLourdes prefere n\u00e3o revelar o valor da indeniza\u00e7\u00e3o que vai receber, mas ela diz &#8220;que n\u00e3o \u00e9 muito e nem d\u00e1 para comprar uma casa&#8221;.<br \/>\n<strong>Abandono.<\/strong> O que aconteceu com a vendedora de 27 anos \u00e9 uma hist\u00f3ria j\u00e1 conhecida &#8211; pr\u00e9-natal prec\u00e1rio, institui\u00e7\u00f5es sucateadas, m\u00e9dicos despreparados. Com forte crise de v\u00f4mito e dores, procurou a cl\u00ednica em que era atendida, conveniada ao Sistema \u00danico de Sa\u00fade (SUS). Foi medicada com rem\u00e9dios para n\u00e1usea, vitamina B12 e cremes vaginais.<br \/>\nVoltou ao ambulat\u00f3rio dois dias depois. O cora\u00e7\u00e3o de Ester j\u00e1 n\u00e3o batia. Uma ultrassonografia &#8211; que teve de ser paga pela fam\u00edlia, apesar do conv\u00eanio com o SUS &#8211; mostrou que a beb\u00ea estava morta.<br \/>\n&#8220;Ela vomitava at\u00e9 sangue. Dei um banho nela, penteei os cabelos. Minha filha era vaidosa e passei perfume. Induziram o parto. Eu ouvia os gritos dela. Fui para casa, dormi um pouco, enterramos o beb\u00ea. Quando eu voltei, o m\u00e9dico disse que ela podia morrer. Era uma da tarde e ele perguntou se eu n\u00e3o tinha uma cl\u00ednica para lev\u00e1-la.&#8221;<br \/>\nAlyne estava com hemorragia. A institui\u00e7\u00e3o n\u00e3o tinha Unidade de Terapia Intensiva (UTI), ambul\u00e2ncia, setor de transfus\u00e3o de sangue. Somente \u00e0s 20h, a vendedora foi transferida para o Hospital Geral de Nova Igua\u00e7u, refer\u00eancia para a Baixada Fluminense. Chegou com parada cardiorrespirat\u00f3ria e precisou ser reanimada. &#8220;Os m\u00e9dicos me disseram: \u2018N\u00e3o fizeram nada por ela\u2019.&#8221; Alyne entrou em coma e morreu no dia seguinte.<br \/>\n&#8220;A condena\u00e7\u00e3o \u00e9 mais do que simb\u00f3lica. Na pr\u00e1tica, \u00e9 muito forte&#8221;, comemora Angela Freitas, integrante da Articula\u00e7\u00e3o de Mulheres Brasileiras, que acompanha o caso de Alyne desde o in\u00edcio. Al\u00e9m da indeniza\u00e7\u00e3o, ser\u00e1 instalada uma placa dando o nome de Alyne \u00e0 UTI da Maternidade Mariana Bulh\u00f5es, em Nova Igua\u00e7u.<br \/>\n<strong>3 PERGUNTA PARA&#8230;<\/strong><br \/>\nSandra Valongueiro, m\u00e9dica e dem\u00f3grafa<br \/>\n<strong>1.<\/strong>Qual \u00e9 a sua an\u00e1lise sobre a assist\u00eancia materna no Brasil? O Minist\u00e9rio da Sa\u00fade tem feito esfor\u00e7o para reduzir a mortalidade materna, mas h\u00e1 uma quest\u00e3o estrutural que tem de ser alterada. O foco que se tem trabalhado \u00e9 centrado no hospital e no m\u00e9dico. A Rede Cegonha (programa federal de redu\u00e7\u00e3o de mortalidade na gesta\u00e7\u00e3o) trabalha com a possibilidade de tirar o parto da m\u00e3o dos m\u00e9dicos, mas isso n\u00e3o acontece na pr\u00e1tica. \u00c9 preciso formar enfermeiras obst\u00e9tricas.<br \/>\n<strong>2.<\/strong> Por que a senhora defende &#8220;tirar o parto da m\u00e3o dos m\u00e9dicos&#8221;? As mulheres chegam aos hospitais e n\u00e3o h\u00e1 leitos para serem atendidas. Ou n\u00e3o tem a equipe completa, com m\u00e9dico, anestesista, pediatra. Ent\u00e3o n\u00e3o s\u00e3o recebidas e t\u00eam de peregrinar. Para mudar, \u00e9 preciso romper com a mentalidade de que s\u00f3 m\u00e9dico faz parto; eles n\u00e3o d\u00e3o conta. A Rede Cegonha tem proposta de centros de parto normal. Mas s\u00e3o os Estados e munic\u00edpios que executam as pol\u00edticas. O hiato \u00e9 muito grande. As mulheres v\u00e3o de porta em porta, s\u00e3o atendidas em maternidades lotadas, o que impede a presen\u00e7a do acompanhante. S\u00e3o viola\u00e7\u00f5es cotidianas de direitos.<br \/>\n<strong>3.<\/strong> Como a senhora v\u00ea o fato de que casos como o de Alyne continuam ocorrendo no Brasil? Muitas Alynes ainda v\u00e3o surgir. Elas ainda morrem por causas ligadas \u00e0 gesta\u00e7\u00e3o, como ecl\u00e2mpsia, infec\u00e7\u00e3o, hemorragia. Mas morrem tamb\u00e9m por doen\u00e7as cr\u00f4nicas como diabetes, HIV, c\u00e2ncer. Houve uma mudan\u00e7a no perfil &#8211; elas t\u00eam filhos mais velhas e t\u00eam v\u00e1rios fatores associados a esse envelhecimento. E o servi\u00e7o de sa\u00fade ainda n\u00e3o d\u00e1 conta de doen\u00e7as t\u00edpicas, como ecl\u00e2mpsia e pr\u00e9-ecl\u00e2mpsia. \u00c9 um quadro muito s\u00e9rio.<br \/>\n&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Fonte: Estad\u00e3o RIO &#8211; Em 2002, 1.655 mulheres morreram por complica\u00e7\u00f5es na gravidez. Uma delas foi a vendedora Alyne Pimentel, de 27 anos. 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